O que começou como uma alimentação padrão para os dias seguintes da retirada dos sisos, se tornou uma amostra de dieta restritiva para esta nutri que vos fala. Você provavelmente sabe como é: comer só refeições líquidas e pastosas por alguns dias, para garantir que a recuperação vai ser a melhor possível. Ok, importante, não nego.
Seria facílimo… se o comer fosse puramente biológico. Mas não é!
Vamos começar do começo: eu preciso te apresentar o Ciclo das Dietas. É um esquema que mostra, basicamente, o efeito dos alimentos proibidos, e é por causa dele que eu não desejo uma dieta restritiva nem pro meu pior inimigo
Começa com uma regra, uma proibição (no meu caso, o necessário “não comer nada sólido”, mas também pode ser, no caso das dietas, “não comer carboidratos”, “não comer doces”, e por aí vai). E aí, já que você não pode comer, você tenta não pensar naquilo, evitação total. Mas você provavelmente já sabe que a mente não funciona assim: logo, a evitação se torna quase uma obsessão, você deseja mais e mais aquilo. É como se o alimento ganhasse mais destaque, seja na sua imaginação, seja nas pistas do ambiente ou das redes sociais, por exemplo. Já passou por isso?
O espaço mental ocupado por tudo que eu não podia comer foi gigante nesses dias. Eu queria mastigar algo bem crocante. Estava sonhando com uma tigela de frutas com granola ou um pote bem grande de pipoca com um filme no meio da tarde. São coisas que eu naturalmente gosto muito e como com uma certa frequência, mas a proibição só tornou esses alimentos ainda mais atrativos pra mim.
O que geralmente se segue a isso, no Ciclo das Dietas, é a quebra daquelas regras iniciais, já que não se consegue resistir ao alimento, cada vez mais atrativo. Aparecem também a culpa por não ter conseguido evitar o consumo e/ou ter achado que exagerou, e a criação de novas (ou as mesmas) regras alimentares, retornando para o início do ciclo.
Não parece muito saudável viver assim, né? E não é mesmo! O problema é que é isso que estamos incentivando ao promover dietas restritivas, mesmo que com a melhor das intenções. Muitas vezes, até dietas aparentemente “tranquilas”, com doces inclusos, porém milimetricamente calculados, podem gerar esses efeitos, já que qualquer grama a mais de chocolate é interpretado como um erro.
“Mas como vou {insira aqui seu objetivo} se não fizer uma dieta restritiva?”
Acredite, existem outros caminhos se você quiser preservar sua saúde física e mental e cultivar uma boa relação com a comida.
Os caminhos são inúmeros: como podemos inserir mais frutas, legumes e verduras? O consumo de proteína tá ok? Tá comendo o suficiente ou fazendo muitas refeições que não sustentam? E a fome e a saciedade, consegue perceber e atender? Consumo de água tá bonitinho? Como podemos ajustar o contexto, frequência e quantidade dos alimentos menos nutritivos, equilibrando a alimentação sem restringi-los? Tu-do isso pode ser trabalhado com leveza e respeito ao seu corpo, rotina e preferências, sem tornar a alimentação mais um problema na sua vida.
Meu desejo é que todas (todas, mesmo aquelas que eu não gosto tanto) as pessoas do mundo possam vivenciar uma relação tranquila com a comida. Isso é básico! Comer é nutrir mas é também memória, cuidado e cultura. Não nos esqueçamos disso.
Quanto a mim, ainda não comi a pipoquinha que tanto amo, mas só de estar me alimentando normalmente, sem restrições, já senti uma melhora de 200% na qualidade de vida – com muito mais espaço mental pra pensar em ooooutras coisas além daquilo que não posso comer. Ufa!

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